Pular para o conteúdo principal

Representatividade sindical

Vivemos em tempos obscuros, nos quais o trabalhador não se vê representado pelo seu sindicato (embora seja a única instituição destinada a defender os interesses específicos de sua categoria) e o eleitor não se vê representado no parlamento (embora este parlamento seja a via mais forte de provocar mudanças estruturais na sua vida, caso fosse melhor composto). Bom, o que esperar de um tempo onde a frase "não me representa" tem sido dita mais que bom-dia, muitas vezes até de forma desconexa ou desnecessária?

No Dicio, representar tem vários significados, dos quais destaco "estar no lugar de outro" e "reproduzir a imagem de". O dicionário InFormal sugere "servir como substituto ou agente de outrem". Em suma, um representante é aquele que age por outra pessoa, ocupando seu lugar, ainda que em momentos e com finalidades específicas. Parece natural supor que representatividade é a qualidade associada à representação, diga-se, o grau no qual o dito "representante" consegue, efetivamente, cumprir sua função de ser como o representado no espaço que foi designado para ocupar. Do que concluímos: ao "não se sentir representado", o indivíduo está dizendo que seu dito "representante" não ocupa seu lugar como ele gostaria, não age como ele agiria. Arrematamos, enfim: a tão falada crise de representatividade é a crise da qualidade de representante, a baixeza, quando não falência, dos níveis de confiança, aceitação, apoio, de representantes, perante aqueles a quem representam.

Um exemplo tão evidente quanto preocupante dessa crise são os sindicatos. Quando bancário, sempre defendi a necessidade da organização sindical, visto que, por mais contraditória, incompetente ou corrupta possa eventualmente parecer a direção de um sindicato, não há outra instituição dedicada a defender especificamente os interesses do trabalhador da categoria em questão. Sempre me pareceu mais lógico disputar o sindicato, seja nas eleições para diretoria, seja nas assembleias, greves e grupos de trabalho - via pela qual se pode conseguir alguma coisa - do que simplesmente abandoná-lo e ficar a ver navios. Claro que esse dilema só existe, contudo, porque uma série de fatores criou, no meio dos trabalhadores, a tal crise de representatividade dos sindicatos.

Há companheiros que culparão somente as intrigas e ataques da imprensa e dos patrões pela "deslegitimação política" pela qual passam os sindicatos, e é óbvio que isso tem influência, mas convenhamos, existe uma série de outros fatores que minaram a confiança do trabalhador naquela que deveria ser sua entidade magna, preferida, obrigatória. Dois fatores são idênticos ao que sustentam, há eras, crise semelhante no meio político-público eletivo: a corrupção e as oligarquias (o nome correto para se referir a instituições que passam anos e anos a fio na mão de um mesmo grupo, normalmente pouco acessível). Outro fator é a ineficiência - por falta de estrutura, desinteresse político ou incompetência - em agregar efetivamente os trabalhadores, estando presente em seus locais de trabalho, criando vias eficientes de contato e resposta, instâncias abrangentes e democráticas de participação, motivar a categoria etc. Nesse ponto, é muito comum que os trabalhadores rejeitem o sindicato por observarem nele uma simpatia partidária ou atrelamento (in)direto a grupos políticos de outras instâncias, o que por si só não tem nada de errado, mas que pode causar influências negativas em relação aos fatores desta lista.

E o quarto e derradeiro fator (que está mais ou menos relacionado com os outros três) é o famigerado peleguismo. Ao finalmente em sua história ganhar um governo de esquerda em 2003, os sindicatos viram-se numa sinuca de bico: como colocar contra a parede o grupo político que os fomentou, apoiou e que permitiu uma era de avanços - pequenos porém indiscutíveis - para o povo pobre e trabalhador? É uma situação complicada, que, ao longo de 13 anos, gerou uma incompleta, porém desagradável e pouco frutífera acomodação das entidades sindicais em relação ao governo federal. Se os outros três fatores já seriam determinantes para arruinar o "grau de representatividade" dos sindicatos, esse quarto terminou de pintar o quadro.

O curioso hoje é que, mesmo após um ano de governo direitista, de ameaças aos direitos trabalhistas e retrocessos em todas as áreas, os sindicatos não recuperaram sua "representatividade" e se encontram numa verdadeira "biela política", se assim posso dizer: não contam com o apoio do governo, ao qual se habituaram durante a era petista, e nem contam com o apoio do trabalhador, de forma geral, que não vê nele uma representação de qualidade.

Convenhamos, esse cenário é aterrorizante: os únicos que podem defender em larga escala o trabalhador não têm base para mobilizar nem instituição que os aparelhe. Sobra o cidadão, o trabalhador comum, nessa história. Para onde ele vai, o que poderá esperar?

Comentários