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Venezuela, mau exemplo para a esquerda

Quando eu era militante estudantil, sempre que o assunto era a Venezuela, os companheiros da esquerda dedicavam elogios aos borbotões ao sistema bolivariano do então presidente Hugo Chávez, de como ele havia reduzido a desigualdade social e a pobreza no nosso irmão sul-americano, tão maltratado por séculos de oligarquias. Não digo que estivessem errados, até porque a tão falada redução da pobreza e das distorções econômicas constitui um fato evidente e estatisticamente comprovado. Chávez ainda pôde se defender das acusações de ser ditador com sucessivas reeleições em pleitos tranquilos e sequer muito contestados pelos detratores do sistema, vejam só. O que me preocupava era o caráter irrestrito, incondicional e voraz dessa defesa feita pelos companheiros, o que não se justifica nesse caso ou em nenhum outro, e o pior de tudo: a extensão dessa defesa ao sucessor de Chávez, Nicolás Maduro.

Ao defenderem sistemas considerados autoritários, seja de que matiz ideológico for, as pessoas costumam usar dois caminhos: ou buscam demonstrar que o sistema tem características democráticas normalmente ignoradas (caso de Cuba, onde a instância máxima do parlamento, a Asamblea Nacional del Poder Popular, é composta por representantes votados em eleições distritais regulares, com voto universal e secreto) ou justificar as práticas autoritárias como necessárias ou mais benéficas que a própria democracia. Bom, infelizmente para os defensores de Maduro, o regime venezuelano atual não pode ser alvo de nenhuma das duas argumentações. Vamos a elas!

Primeiramente, o regime de Maduro não pode ser considerado democrático. Se Hugo Chávez se manteve no poder mediante eleições diretas referendadas pela comunidade internacional e conviveu com um parlamento relativamente autônomo, Maduro busca vias de se perpetuar no poder, combinando o aparelhamento institucional com a expansão de grupos paramilitares de apoio, uma mistura que é tão antidemocrática quanto explosiva. Diante do acirramento das tensões com a oposição e da firme resistência de um parlamento majoritariamente oposicionista, a estratégia de Maduro foi anular o parlamento por meio da instauração - mediante procedimento extremamente questionável - de uma Assembleia Constituinte, a qual não só sobrepuja todas as instituições então vigentes (risco evidente à democracia), inclusive, convenientemente, o parlamento oposicionista, como também projeta resultados francamente arbitrários e favoráveis à perpetuação do atual regime.

Segundamente, uma vez que se admita que a Venezuela de Maduro nada tem de democrática, como já teve um dia mesmo durante o sistema chavista, pode-se incorrer no erro de defender as arbitrariedades do dito presidente com base na alegação de que são necessárias para levar a cabo mudanças positivas e evitar retrocessos, golpes, etc. A Venezuela não conseguiu lidar com o acirramento da concorrência internacional no mercado petrolífero e expôs sua já limitada economia a uma crise sem fim: com a inflação em níveis estratosféricos, o governo inicialmente se limitou a congelar preços e colocar o exército nas ruas para prender empresários e comerciantes descumpridores da medida, o que já aprendemos aqui no Brasil, com o Plano Cruzado, que não funciona; depois, decretou estado de emergência, racionamento de energia, descongelou o preço da gasolina (estimulando a inflação já astronômica) e fez uma série de intervenções cambiais que só provocaram a falta de moeda estrangeira para as empresas venezuelanas. Em resumo, os ganhos sociais de Chávez perderam-se num oceano de inflação, desabastecimento de alimentos e remédios, desemprego e racionamento de energia elétrica.

Até, talvez, um ano atrás, eu evitava emitir opiniões sobre a Venezuela, pois esmagadora maioria das informações às quais eu conseguia acesso ou estavam deturpadas pelo filtro anticomunista da grande imprensa, ou eram odes panfletárias de exaltação ao "companheiro Maduro"; não obstante, o desenrolar da crise sócio-político-econômica foi tão gritante e tão dramático que me surpreendeu e chocou, assim como a todas as organizações internacionais das quais a Venezuela faz parte. Acredito que os avanços de Chávez estão sendo destruídos por um ímpeto cego e autoritário que só pode terminar ou numa ditadura totalitária escancarada, ou num golpe de estado oposicionista com certeira participação ianque e provável guerra civil. As duas hipóteses são péssimas.

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