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Mostrando postagens de 2017

Venezuela, mau exemplo para a esquerda

Quando eu era militante estudantil, sempre que o assunto era a Venezuela, os companheiros da esquerda dedicavam elogios aos borbotões ao sistema bolivariano do então presidente Hugo Chávez, de como ele havia reduzido a desigualdade social e a pobreza no nosso irmão sul-americano, tão maltratado por séculos de oligarquias. Não digo que estivessem errados, até porque a tão falada redução da pobreza e das distorções econômicas constitui um fato evidente e estatisticamente comprovado. Chávez ainda pôde se defender das acusações de ser ditador com sucessivas reeleições em pleitos tranquilos e sequer muito contestados pelos detratores do sistema, vejam só. O que me preocupava era o caráter irrestrito, incondicional e voraz dessa defesa feita pelos companheiros, o que não se justifica nesse caso ou em nenhum outro, e o pior de tudo: a extensão dessa defesa ao sucessor de Chávez, Nicolás Maduro. Ao defenderem sistemas considerados autoritários, seja de que matiz ideológico for, as pessoas...

A república da incerteza

Lembro-me de, alguns anos atrás, opositores do então governo Dilma queixarem-se da falta de "segurança jurídica" no Brasil, alegando que atitudes intervencionistas, irresponsáveis ou contraditórias do Planalto criavam um "cenário de incerteza" para empreendedores e investidores, prejudicando a situação econômica do país. É curioso perceber como a passagem do tempo pode nos fazer olhar para as situações de maneiras diferentes. Uma vez concretizada a saída de Dilma da presidência da República, tão almejada pela turma do capital financeiro tão preocupada com a "insegurança", bom, a coisa entrou numa espiral de complicações tão grande que hoje temos muito mais motivos para fazer queixas desse tipo. Boa parte da equipe de primeiro escalão nomeada por Michel Temer há pouquinho mais de um ano já deixou o cargo em razão de investigações e denúncias, ou ao menos caminha na corda bamba pelo mesmo motivo. As queixas a Dilma pela rápida troca de Janine Ribeiro na pa...

Greve

Como era de se esperar, a greve geral do último dia 28 suscitou uma desgastante confusão que contrapunha apoiadores, para os quais esse tipo de mobilização é crucial na consecução de pautas importantíssimas para o trabalhador brasileiro, e detratores, que questionavam a legitimidade política da greve e focavam nos eventuais transtornos que trouxe à população (quando não, a suposta vinculação partidária). É um debate antigo; greve é um tema polêmico, que, além das linhas gerais, tem mesmo de ser analisado caso a caso, ponto a ponto. Ainda que muitas greves sejam deflagradas de surpresa ou em assembleias pouco representativas, o que configura basicamente começar mal, é preciso observar que a greve, além de ser um direito constitucional do trabalhador, muitas vezes representa a única forma de forçar uma negociação com empresários, sindicatos patronais ou mesmo o poder público, quando é o caso. E forçar uma negociação, em parte significativa das situações, representa não a obtenção de va...

Representatividade sindical

Vivemos em tempos obscuros, nos quais o trabalhador não se vê representado pelo seu sindicato (embora seja a única instituição destinada a defender os interesses específicos de sua categoria) e o eleitor não se vê representado no parlamento (embora este parlamento seja a via mais forte de provocar mudanças estruturais na sua vida, caso fosse melhor composto). Bom, o que esperar de um tempo onde a frase "não me representa" tem sido dita mais que bom-dia, muitas vezes até de forma desconexa ou desnecessária? No Dicio, representar tem vários significados, dos quais destaco "estar no lugar de outro" e "reproduzir a imagem de". O dicionário InFormal sugere "servir como substituto ou agente de outrem". Em suma, um representante é aquele que age por outra pessoa, ocupando seu lugar , ainda que em momentos e com finalidades específicas. Parece natural supor que representatividade é a qualidade associada à representação , diga-se, o grau no qual o dito ...

Democracia

Quando Cuba surge como assunto de uma discussão, é comum que os ânimos fiquem acalorados e as pessoas se polarizem: ou a famigerada ilha caribenha é um paraíso onde a miséria e o analfabetismo foram erradicados, ou o domínio de uma ditadura sanguinária que oprimiu, matou, torturou e mentiu ao longo de décadas. Para além do fato de que ambas as posições são exageradas e distorcidas, acredito que esse tipo de debate suscita uma discussão importante sobre democracia. Quando alguém me diz que Cuba é condenável por supostamente não ser democrática e sim uma ditadura, respondo perguntando: sim, mas o que é democracia? Ih... difícil! Não creio que o importante seja definir, padronizar democracia em detalhes, pois isso geraria um debate interminável e provavelmente inútil; é um exercício interessante, por outro lado, perceber o que torna um país mais ou menos democrático, e, após fazer essa reflexão N vezes, só posso dizer que todos os países que coloquei na balança provavelmente não t...

Legitimidade

Nefasta cria de movimento estudantil que sou, recordei dia desses o quanto usava - e ainda uso - as palavras "legítimo", "legitimidade" e "(des)legitimar". Nos acalorados meandros da política universitária, uma fala poderia legitimar algo que estava errado, a ida ao reitor antes de consultar o diretor do departamento deslegitimaria o coitado, uma determinada forma de protesto poderia ser legítima ou não... enfim, sem refletir sobre o real significado de legitimidade, jorrávamos termos correlatos aos borbotões, e, naturalmente, corríamos o risco de errar ou de deturpar as coisas. Mas estudante é assim mesmo. Vamos aos significados oficiais, listando os que nos interessam. Para o Google, legítimo pode ser "legal", "explicado pelo bom senso, justo, razoável" ou "que procede, que tem lógica". No Dicio, temos "que tem as qualidades requeridas pela lei" e "justo, razoável". Para o Wikcionário, o dicionário da W...